Como fazer a cidade dar certo? De princesinha a capital do petróleo, sem porto.

Acabamos de receber a Feira Brasil Offshore na nossa cidade e este tema é muito pertinente a nossa região principalmente no que tange na área financeira, mas você deve estar se perguntando o porquê de uma arquiteta estar escrevendo sobre este tema? Eu respondo, nas próximas linhas, que tem tudo a ver no nosso contexto arquitetônico e urbano. Andando pelos corredores da Feira e participando de alguns grupos de discussão posso dizer que:  O que se ouviu nos corredores da Feira e principalmente nos jornais locais foi a máxima: E o Porto?

Primeiro vamos falar do atual cenário da nossa cidade:

Quanto a cidade sou sempre defensora de tudo que amplia a melhoria do nosso ambiente e estabilidade financeira, pois é daqui que se provem o sustento de várias famílias e inclusive a minha, digo não só a nível municipal, a queda que tanto sentimos nos últimos anos se refletiu também no âmbito estadual e federal, sei que além disso tivemos problemas éticos políticos e instabilidades nas gestões estadual e federal. O que está sendo feito, o que já poderia ter sido feito e o que será feito para mudarmos este cenário para algo positivo?

Por termos históricos, datados da época da colonização, sempre fomos uma área estratégica, para a região norte fluminense e por isso precisávamos e posso dizer que ainda precisamos de proteção constante³.

Politicamente todas as frentes estão em ebulição desde o executivo e legislativo, acredito que apesar das divergências políticas todos tem um denominador comum que é a nossa Macaé, cidade mãe que nos deu vida e que a muitos sempre acolheu. Temos serra, sol e mar, somos a princesinha do atlântico historicamente já ajudamos o país crescer com nosso porto. Nosso Porto? Você deve estar assustado agora né? Como assim nosso porto Grasiela, Macaé nunca foi portuária? Pois é durante muitos anos Macaé foi o principal ponto de distribuição de cana de açúcar e café da região, lembram da história do canal Campos-Macaé¹?

(foto retirada do site Ururau)

Construído por escravos durante 17 anos, o Canal Campos-Macaé foi inaugurado em 1861. Com 109 km de extensão, é o segundo canal artificial mais longo do mundo, perdendo apenas para o Canal de Suez. Considerado uma das maiores obras de engenharia do século XIX, conecta os rios Paraíba do Sul e Macaé. Com o objetivo de facilitar o escoamento da produção açucareira, o canal começou a operar apenas em 1872 e entrou em desuso depois da construção da Estrada de Ferro Campos-Macaé. Atravessando as cidades de Campos dos Goytacazes, Quissamã, Carapebus e Macaé, o canal passa pelo Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba e faz parte dos roteiros de ecoturismo da região. (Mapa de Cultura)

Olha que interessante:

O Canal Campos-Macaé foi objeto de Tombamento Provisório pelo INEPAC em 2002. Um projeto para a sua recuperação vem sendo o ponto de partida para incentivar o turismo histórico e ecológico e o desenvolvimento sustentável da região Norte Fluminense.

Voltando ao tema porto, sim nós tínhamos um porto importante para a região, principalmente por não ser tão perigoso, este porto era o Porto da Imbetiba², pois é o famoso Porto da Petrobras, que quando chegou na nossa cidade “tomou” para si o nosso único porto. É fato que a Petrobras impulsionou a nossa cidade porem não fomos inteligentes para recebê-la corretamente. Desde antes da instalação da Petrobras, fracassamos no planejamento, seja de gestão política quanto de gestão urbana. A cidade cresceu desordenada e sem aproveitar corretamente a prosperidade. Inclusive quando a Petrobras aqui se instalou, não soubemos preparar nossos cidadãos para trabalhar na área, levamos em torno de 2 décadas até ter faculdades de engenharia na nossa cidade (vou pesquisar a data correta). Nosso aeroporto até hoje não está habilitado para receber aviões, quando cidades próximas que construíram seus aeroportos depois do nosso recebem voos até internacionais. Tudo isso por erros estratégicos ou por apatia política?  Bem, aí seria assunto para outro tipo de coluna, vai além do que me permito tocar nesta ferida mas vamos continuar conversando falando sobre arquitetura e urbanismo numa cidade portuária.

Como fazer a cidade dar certo, mesmo sofrendo uma grande interferência? Acredito que precisaremos usar grandes sucessos como referência.

A desconstrução de uma cidade em funcionamento e descaracterização local poderia gerar um grande movimento de gentrificação? Sim, concordo plenamente com isso mas usar a inteligência é gerar a melhora do local e elevar o nível social de seu povo, dando oportunidades iguais principalmente a população de baixa renda local com positivas contrapartidas.

Estive recentemente numa viagem estratégica para ampliação e atualização do meu trabalho, fui fazer um curso em Milão na Itália e por sorte consegui passar 3 dias em Amsterdã, sorte mesmo, pois apesar de já conhecer o sucesso da correção da sua estrutura urbana e ampliação, estar presencialmente como local e vivencia-la faz muita diferença.

Trafego fácil na cidade de Amsterdã

Pesquisando para escrever esta coluna percebi que temos muitas coisas em comum com esta região além do que nunca imaginaríamos, ambas já tiveram seus canais artificiais apelidados como Veneza (Segundo dados do livro ‘História e Lendas de Macaé’*, o canal que chegava ao nosso leito marítimo pelo rio Macaé, era conhecido como a “Veneza brasileira”).

Esta região também passou pelo desenvolvimento ligado a produção do Petróleo e que precisou readaptar-se para isso que também cometeu erros e mas soube precisamente corrigi-los. Infelizmente não consegui ir na cidade portuária que faz parte desta região que é Rotterdam, pois ela é um exemplo de implantação e acerto de zoneamento para evitar gentrificação e tem como título a Capital da Arquitetura da Holanda, será que com bons projetos poderemos elevar Macaé a este título? Roterdã é eleita a Melhor Cidade da Europa pela “Academy Of Urbanism”

Veja neste trecho de um estudo feito quanto a estas duas cidades, principalmente destacando a parte negativa, quanto aos portos:

Merk e Notteboom afirmam que apesar de serem portos eficientes com um crescimento notável e fontes de receitas públicas, os impactos económicos diretos não se traduzem em criação de mais empregos. São especializados em diversos sectores, o que leva a que haja uma taxa de emprego relativamente baixa. Os impactos económicos indiretos na economia nacional são baixos, no caso de Roterdão, mais do que para os restantes portos da Europa que fazem parte do seu cluster marítimo. Em Amsterdã foram também encontradas algumas ligações similares intersetoriais. As repercussões económicas positivas estendem-se a outros países, e com a possibilidade de melhoramento de vias terrestres alemãs e da infraestrutura ferroviária, poderiam vir a aumentar o número de spillovers, de indústrias que estão intimamente ligadas ao seu funcionamento. Afirmam, também, que são portos inovadores onde as principais licenças para exploração de serviços pertencem ao shipping, aos equipamentos de elevação, construção e produtos de alimentação. Amsterdã está no top 10 de pedidos de licenças para a exploração de petróleo. Ainda assim, é verificado pelos autores que o sector de logística poderia ser melhor desenvolvido. Mas existem, também, impactos negativos, segundo os autores. Danos ambientais, como a poluição do ar por emissões de CO2 é particularmente alta em Roterdão, derivada de todo o tipo de indústrias na área portuária, do elevado aumento do transporte rodoviário, à grande elevada densidade populacional e à falta de espaços verdes, são os fatores para este agravamento da situação. Espera-se que com a finalização do terminal Maasvlakte 2 o congestionamento rodoviário diminua e que este seja efetuado por navios de maior capacidade e amigos do ambiente. A utilização de barcaças e balsas fluviais é sem dúvida uma mais-valia para a redução de tais emissões poluentes e para aliviar fluxos de carga para os centros de distribuição para além dos seus hinterlands. Ambos os portos têm constrangimentos de carácter vinculativo em termos de funções portuárias e urbanas. Apesar de Roterdã ter um excelente desempenho económico, não consegue captar empresas e mão-de-obra especializada do setor, não conseguindo tornar-se num líder mundial em serviços marítimos. No caso de Amsterdã, mostram que, apesar de ter um perfil económico diversificado consegue estimular um amplo conjunto de sectores de economia. O GRANDE DESAFIO É EM PERCEBER COMO USAR O CLUSTER MARÍTIMO COMO FATOR DE DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO URBANO EM SERVIÇOS ESPECIALIZADOS DA ÁREA.

Seguindo adiante no estudo se destaca que a sinergia entre portos próximos é o diferencial no sucesso destes portos e valorização da região.

Então entendo, com base neste estudo, que um Porto poderá complementar o outro, sendo a região e inclusive o estado carioca quem mais irá ganhar com esta estratégica.

Voltando a comparação: Destaques da cidade como quinto centro financeiro europeu com mão de obra qualificada no setor logístico, destacando-se por sua infraestrutura com um aeroporto internacional (Aeroporto de Schiphol) e um moderno porto marítimo.

Vejam o motivo da cidade de Macaé ter parado no tempo éramos uma grande base “financeira” muitos negócios partiam daqui, porem paramos no tempo não buscamos, em tempo hábil, melhorar a infra do nosso aeroporto e a infra portuária, mas hoje já temos mão de obra qualificada em quantidade e de fácil acesso, falta pouco para sermos uma Amsterdã Brasileira.

Fotos da cidade ficam na lembrança de uma cidade super estruturada para um povo educado onde o convívio humano e o respeito pelo cidadão fazem de Amsterdam um modelo de cidade e um bom lugar para que políticos brasileiros façam um estágio para saber como se faz Mobilidade Urbana, Acessibilidade, em diferentes tipos de cenários como são as cidades brasileiras. (Amsterdam por Eng.Urb.Vagner Landi)

Espero não ter sido muito extensa mais a temática é longa e muito cativante e atualmente é um ponto estratégico para o nosso futuro não tão distante.

Sobre a Autora:

Grasiela Mancini é Arquiteta&Urbanista, formada pela USU – RJ (Universidade Santa Úrsula) no ano de 2001 e desde a sua formação realiza projetos, proprietária da empresa GRASIELA MANCINI Projetos. Contatos pelo e-mail: grasiela@grasielamancini.com.br  – Conheça um pouco da nossa empresa, visite nossa página no Facebook, CLIQUE AQUI ou o nosso site www.grasielamancini.com.br

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¹O projeto do canal, datado de 1837, é de autoria do engenheiro inglês John Henry Freese. A sua construção foi autorizada por lei da Assembleia Provincial do Rio de Janeiro em 19 de outubro do mesmo ano.

²No Porto de Imbetiba, o número médio de atracações tem se mantido praticamente estável nos três últimos anos, com movimentação entre 450 e 500 navios por mês. Para dar conta de seu trabalho, Imbetiba, tem um quadro de pessoal em torno de 2,5 mil funcionários. Além disso, Imbetiba já chegou a ser em 2012, o 3º maior porto do país, em valores exportados com US$ 6,8 milhões.

³Apesar de todos esses esforços de colonização, até o fim do Século XVII, Macaé continuou desprotegida. Nas ilhas de Santana instalou-se um centro de piratas franceses que, em 1725, saqueavam todo o litoral. Roubavam embarcações e assaltavam os que traziam gados e mantimentos para a cidade do Rio de Janeiro.

Livros consultados:

História e Lendas de Macaé
Armando Borges
Ano: 2005 / Páginas: 200
Idioma: português
Editora: Damadá Artes Gráficas e Editora LTDA

Sites consultados:

http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/canal-campos-macae

http://www.ururau.com.br/cidades12314

http://www.robertomoraes.com.br/2014/04/porto-de-imbetiba-em-macae-deixou-de.html

http://www.macae.rj.gov.br/conteudo/leitura/titulo/historia

https://www.skoob.com.br/livro/358229#_=_

http://www.cargoedicoes.pt/site/Default.aspx?tabid=380&id=9715&area=Cargo

https://engvagnerlandi.com/2014/08/13/amsterdam-a-capital-da-holanda-a-veneza-do-norte-europeu-the-capital-of-holland-the-venice-of-northern-europe/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Porto_de_Roterd%C3%A3o

http://logisticatecnologos.blogspot.com.br/p/o-porto-de-reterdam.html

http://www.au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/243/trio-de-escritorios-finaliza-a-estacao-roterda-central-na-cidade-313050-1.aspx

http://www.archdaily.com.br/br/757888/roterda-e-eleita-a-melhor-cidade-da-europa-pela-academy-of-urbanism

http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/12.141/4463

http://www.archdaily.com.br/br/01-155919/de-rotterdam-slash-oma#_=_

http://www.logisticadescomplicada.com/porto-de-roterda/

 

 

 

 

 

5 comentários em “Como fazer a cidade dar certo? De princesinha a capital do petróleo, sem porto.

  • 25/06/2017 em 17:29
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    Esse projeto do canal me provoca tantas reflexões… Faço análise do passado e do futuro. Algumas decisões nossas precisam realmente de muita análise para que o melhor seja alcançado. Do mesmo modo que se deve fazer com a gestão pública da nossa querida cidade. Parabéns pelo excelente texto, Grasi!

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    • 25/06/2017 em 17:44
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      Concordo com você, as oportunidades estão na nossa frente, considero Macaé como uma peça bruta que ainda não souberam lapidar. Obrigada pelo carinho!

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  • 25/06/2017 em 18:26
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    Que coisa linda e importante, porque nos detalhes aplicados é que podemos fazer toda diferença, e pode sair daí parte do grande diferencial futuro de nossa cidade.
    Você me fez voltar ao passado quando ainda criança como cidadão macaense, passeava por vários locais de nossa cidade e o canal é realmente algo que (em lendo sua matéria) me remeteu ao passado e vejo um sentimento nobre de sua parte retratar o assunto de grande importância.
    Me fez lembrar também um túnel que quando criança no no terreno do Colégio Castelo (e há quem diga que ia até o Forte Marechal Hermes), brincávamos e entrávamos nele e as pessoas ficavam impressionadas com pedras marcadas com nomes provavelmente de escravos, correntes marcadas… em fim…
    Nossa Macaé é linda, amo nossa cidade que empregou milhares de pessoas e costumavam dizer até que é uma ótima madrasta, recebendo pessoas de diversos lugares.
    Amo nossa Macaé e como empresário no ramo moveleiro sempre recebo arquitetos, designers de interiores e até mesmo engenheiros que sempre falam do Canal Campos x Macaé.
    Parabéns!
    Abraão Lyrio
    http://www.tokshikestofados.com.br
    Tel: 22-2759-8702
    Tel: 22-97401-2715

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    • 25/06/2017 em 18:34
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      Concordo, precisamos olhar para o passado e construir o futuro refazendo o passado que foi tão positivo para a nossa cidade. Vou pesquisar mais sobre o túnel é bem bacana principalmente para o contexto histórico para a base do turismo. Obrigada pela participação!

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  • 25/06/2017 em 21:53
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    Muito bacana a sua contextualização sobre uma Macaé – do que foi, do que poderia e deveria ter sido e como podemos nos espelhar. Eu concordo quando quando você aborda sobre a possível gentrificação que pode ser causada mediante melhorias, mas sobretudo pauta que as melhorias devem ocorrer, que os menos favorecidos devem fazer parte desse contexto não de forma excludente, mas como uma oportunidade de melhorar as pessoas e a cidade. Certamente em um primeiro momento essa visão pode ganhar a desconfiança de muitos, mas para realmente mudar a cidade é preciso uma grande cirurgia, polêmica, mas necessária, e os resultados esperados podem sim fazer que Macaé mereça o título de Capital Nacional do Petróleo.

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