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13/03/2008
Os dois artigos abaixo, o original de 1995 e o de 2007, são partes da série que comemora 10 anos de lançamento do livro “Pensando Macaé”. A publicação deles, juntos, pretende fazer uma comparação entre as duas épocas e suas semelhanças.
1° artigo
Em busca do futuro
Daqui a pouco entramos no ano 2000, século XXI, Macaé com aproximadamente 200.000 habitantes, 25 anos de petróleo. São números redondos e grandiosos que enchem os olhos de qualquer um. No entanto, a expectativa não confere com a realidade. Se na teoria temos motivo de alegria, na prática o exemplo é cruel. A despeito das mudanças que jogaram Macaé na primeira linha das cidades brasileiras, as autoridades ainda reagem a este fenômeno com um pé no passado. Os royalties, O ISS, o ICM, os impostos continuam. Abundantemente. Não somos nenhum Kuwait, mas o petróleo jorra. E quando este petróleo se transforma em serviços para a comunidade são obras que qualquer município atrasado e pobre pode realizar.
Devemos, é verdade, aplaudir as duas únicas obras que refletem uma visão de futuro. A primeira, a construção da avenida Fábio Franco, dita “Linha Vermelha”, na gestão Sílvio Lopes. A outra é o novo desenho da rua da Praia, estendendo-se pela Barra, agora na administração Carlos Emir. Elas desafogam o trânsito, abrem caminhos e carregam em sua execução uma expectativa de preparação da cidade para adiante.
Além delas, nada mais digno de registro. Macaé permanece estacionária. A sociedade desconhece um projeto a longo prazo, que a faça compreender e enfrentar seu próprio crescimento.
Aprendendo o futuro
Os jornais noticiaram a vinda de empresários espanhóis ao Estado do Rio para realizar um grande projeto turístico/hoteleiro, que vai de Rio Bonito até São Pedro de Aldeia. Nestes mesmos dias o Jornal do Brasil trouxe uma reportagem com o Senador Darcy Ribeiro, sobre a implantação da Universidade do Norte Fluminense – UENF – trazendo para Campos dezenas de cientistas do mais alto gabarito. Ao nosso redor a região cresce, as oportunidades são aproveitadas, se multiplicam. Nos extremos a corrida e nós, no meio, parados. Macaé, no epicentro, insiste em tornar-se uma infeliz periferia.
Não esqueçamos jamais o nosso passado. Mas o futuro está aí, exigindo respostas. E não é difícil encontrá-las: a Petrobras, as multinacionais instaladas em Macaé, os grandes grupos privados nacionais, são parceiros naturais nesta transformação. O governo de Curitiba, Jaime Lerner, oferece assessoria para planejamento urbano. A UNICEF- Fundo das Nações Unidas para a Infância – vem de premiar o governo do Ceará por conquistas sociais. Campos recebe uma Universidade. Até a pequena Conceição de Macabu descobriu um convênio com a Biblioteca Nacional. É sair por aí e aprender.
Preparar o futuro é preparar a cidade para o fim do petróleo daqui a 40 anos, atraindo indústrias que não dependam da estrutura atual para funcionar. Criando outros mecanismos de sobrevivência. Pois fiquem certos de que, no período em que as reservas de óleo começarem a escassear, esta constelação de empresas que ilumina a cidade irá sumir na poeira em busca de novas oportunidades. Junto com elas naturalmente partirá a massa de imigrantes que se move ao sabor das ofertas de trabalho.
A nossa maior defesa é, com a fartura de hoje, podermos prever e melhorar o amanhã. Ou então vamos assumir a responsabilidade de, já no início do novo século, deixar uma cidade-fantasma como presente para nossos netos.
Setembro de 1993.
2° artigo
O futuro chegou.
É verdade, na metade da primeira década do século XXI o futuro já chegou a Macaé. Podemos senti-lo nas grandes avenidas que cortam a cidade com o nome de linhas vermelhas, amarelas, verdes, azuis, na orla da praia dos Cavaleiros, Lagoa de Imboassica, na pista para o Parque de Tubos, nos acessos aos bairros da Ajuda e por aí vai, de surpresa em surpresa, descobrindo estradas por todo canto.
Já que estamos falando de estradas, é interessante registrar o tardio despertar do Poder Municipal em tratar com atenção duas áreas tão caras ao município. Em uma, a Granja dos Cavaleiros, a urbanização enfim sendo concluída no bairro onde fervilham empresas de petróleo, mola propulsora do progresso macaense que o último censo classifica por volta de 700 companhias. Na outra parte a estrada que corta o Aeroporto de Macaé, durante anos esquecida de sua importância, ela que vem transportando uma população flutuante diária de quase 2.000 pessoas, fonte de propaganda gratuita para exibir a hospitalidade e a beleza da terra macaense.
Sentimos o futuro na crescente verticalização dos prédios residenciais e comerciais, fenômeno urbano típico do surgimento de uma metrópole. O crescimento horizontal de Macaé, embora ainda tenha bastante espaço livre, começou a se esgotar pela distância dos centros de decisão. A opção natural veio através da concentração nos cada vez mais altos edifícios.
Da antiga crônica, onde eu lamentava a nossa exclusiva dependência da indústria de extração de petróleo, descobrimos que estamos à procura de alternativas. Por outro lado, segundo os especialistas, atingiremos o clímax de atividade na Bacia de Campos em 2015 e daí para diante haverá uma curva descendente em direção ao fim. O novo eldorado se transferirá para a Bacia do Espírito Santo. No mundo, a previsão do final das reservas de petróleo está marcada para daqui a 40 anos. Nesse contexto vale registrar a estrutura que vem sendo construída em nossa terra para enfrentar os novos tempos.
A Usina Termoelétrica instalada em Macaé significa um passo nesta direção. Utilizando o gás excedente vindo do mar como fonte de energia ela está preparada para suprir a demanda de uma cidade com uma população de 2 milhões de habitantes. O fator da energia disponível aliado ao enorme espaço horizontal da geografia macaense nos faz o lugar ideal para receber investimentos de grandes empresas.
Para fechar com sucesso esta fórmula se faz necessário possuir uma farta mão de obra especializada à disposição. Aí é que entra a Universidade Municipal de Macaé. Ela chegará como complemento fundamental de uma equação que soma todos esses fatores acima citados: energia excedente + espaço + estradas para escoamento de produção + mão de obra especializada + suporte acadêmico. A Universidade poderá até não formar o especialista dessa área tecnológica, mas ela funciona como elemento catalisador de uma nova e sofisticada geração de profissionais. É o centro da teia de elementos culturais que aduba uma terra para que tenhamos uma rica colheita.
Para que esta idéia se torne realidade urge mexer no setor público. Sabemos que as companhias nacionais e multinacionais são constantemente obrigadas a renovar suas políticas industriais a fim de se adaptar às novas tecnologias. Essa reciclagem acelera a qualidade de seu trabalho e as coloca na dianteira do mercado. O estado brasileiro com sua aversão para cortar custos e prestar contas de suas atitudes, além do poder que lhe permite ser um governo dentro do governo, sempre caminhou de forma lenta.O vício da ausência de concorrência reduz sua velocidade para enfrentar os desafios da sobrevivência. O estado é absoluto, está acima do cidadão comum, por isso anda no lento ritmo que melhor lhe convém.
Ninguém dorme quando se trata de atrair investimentos para sua cidade. Faz algum tempo Rio das Ostras acordou e hoje conta com diversas empresas no município devido a sua política de incentivos fiscais e redução de impostos para aqueles que ali queiram se instalar. Campos saiu na frente, usou sua influência e carregou para lá a Universidade do Norte Fluminense. Basta pronunciar o nome de seu idealizador, o antropólogo Darcy Ribeiro, para avaliar o que perdemos.
Embora aconteçam tropeços precisamos ajustar a bússola para a direção correta. A cidade cresce, o petróleo jorra, o poder público precisa abandonar sua arrogância e aprender a buscar assessoria em outros centros para ampliar seus projetos. Abrir-se ao diálogo com entidades reconhecidas por sua capacidade empresarial, percebendo que não pode mais permanecer na rabeira dos acontecimentos sob pena de perder as oportunidades que haverão de surgir. Temos de cruzar as fronteiras provincianas e cair no mundo com decisão e discernimento.
Vivemos talvez mais do que o início do despertar da velha aldeia, do adeus ao tempo antigo, suaves horas sonolentas. O novo século escancarou suas portas à nossa curiosidade. O crescimento será um constante desafio a testar nossa capacidade. Aproveitemos a chance e tenhamos a coragem de nos empenhar na construção de uma Macaé próspera, pronta para receber esta geração ávida de mudanças.
Macaé, 01 de fevereiro de 2007.
O autor destas crônicas, Fernando Tavares Pereira, é um macaense de múltiplos talentos. Durante os anos em que viveu no Rio de Janeiro diplomou-se em língua francesa pela “Alliance Française”, onde também fez várias exposições de luminárias, editou livros de arte gráfica e design para revistas de arte.
Retornou a Macaé. Aqui iniciou sua atividade de cronista escrevendo para revistas e jornais macaenses. Trabalha há vários anos na Bacia de Campos. O livro que deu origem a esta série de crônicas, “Pensando Macaé”, encontra-se à venda na banca de jornais da Galeria Carapebus.
E.mail: ftavares48@terra.com.br
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