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13/03/2008
Abertura e entrevista
O Azullimao tem a satisfação de trazer mais um novo colunista para o nosso site, o escritor Fernando Tavares Pereira. Com ele vamos iniciar uma série de artigos comemorando uma década da edição de seu livro “Pensando Macaé”.
Nesta série, composta de 9 crônicas a serem apresentadas a cada semana, tentaremos mostrar as contradições entre a Macaé de ontem e a dos dias atuais. Para enriquecer a leitura eles serão editados em dupla: primeiro o artigo original do livro de 1995, o segundo escrito agora em 2007, estabelecendo uma comparação entre as duas épocas. Ambos procuram revelar as faces do nosso comportamento diante desta mudança que revirou nossa historia de cabeça para baixo.
Tudo começou em 13 de dezembro de 1995 quando o autor convidava para um coquetel de lançamento de seu novo livro, “Pensando Macaé”, no Chaplin’s Bar, resultado das crônicas publicadas no jornal O Debate no período de 1993 até aquele ano.
Era a primeira vez que um escritor macaense analisava as profundas transformações pelas quais passamos desde a chegada da Petrobras. O que de bom ou ruim este acontecimento significou em nossas vidas era dissecado nas páginas do jornal, em um momento que marcou a nossa história de maneira inesquecível.
Apesar de naquele tempo a Petrobras estar a quase 20 anos entre nós Macaé ainda patinava na utilização do fabuloso montante de recursos que entrava em seus cofres. O quadro, em 2008, não é muito diferente. O dinheiro continua chegando em volume cada vez maior, entretanto parece que ainda não aprendemos a utilizá-lo com parcimônia e sabedoria. E verdade que muita coisa foi feita, mas basta dar uma olhada em volta para sentir que a distribuição da riqueza deixa muito a desejar.
De qualquer modo Macaé cresceu, e muito, e está tomando jeito de cidade grande. A responsabilidade de governar nos novos tempos exige que as autoridades abandonem os velhos vícios interioranos e abram a mente
para enxergar as exigências de uma sociedade tão diversificada como esta que agora vivemos.
Após esta rápida introdução e continuando a seqüência vamos passar à entrevista que o autor fez com o Azullimao. Desde já ficamos combinados nos encontrar na próxima semana, para conferir o primeiro artigo da série. Até lá.
Entrevista
Azullimao: - 13 anos depois do livro “Pensando Macaé” o que você acha que mudou na cidade?
Fernando: - Muita coisa. Macaé cresceu, ficou diferente, transformou-se em outra cidade. O mais interessante que eu noto é que antes havia uma idéia de que a riqueza gerada aqui caia do céu, como um evento cósmico. Hoje temos uma consciência melhor, a de que estes recursos são nossos por direito, pertencem à cidade, aos habitantes. Para mim essa é a maior mudança.
Azullimao: Você quer dizer que os royalties hoje são mais nossos do que antes?
Fernando: - É evidente que não houve uma fusão entre a Prefeitura e a Petrobras. Mas antes nós vivíamos de mesada, como o garoto recebendo do pai o dinheiro no fim do mês. Agora nós aprendemos que este dinheiro nos pertence, temos o direito de exigir, de lutar por ele e de administrá-lo da melhor forma possível. Essa é a diferença.
Azullimao: - E qual o resultado visível desta mudança de atitude?
Fernando: - Deixamos de pensar pequeno para pensar grande. Mesmo que eu ainda veja falhas e bastante desleixo na aplicação dos recursos que recebemos, com certeza está acontecendo uma nova postura. Até se percebe uma pitada de ousadia, uma vontade de acertar como nunca houve antes.
Azullimao: - Dê um exemplo desta ousadia?
Fernando: - A maior delas a construção da Universidade Municipal. Estamos torcendo para que funcione a contento, pois Macaé precisa parar de exportar estudantes para outros centros e criar uma geração formada aqui mesmo. Será um trabalho árduo com um custo muito alto, a inclusão de disciplinas especializadas será lenta, mas temos que ter confiança de que tudo vai dar certo.
Azullimao: - Você costumava dizer, ou diz ainda, que não podemos ficar com a nossa economia atrelada ao petróleo. Como é possível se ele sempre foi a mola mestra de nosso desenvolvimento?
Fernando: - Eu penso que ficou até fora de moda falar em Macaé antes da chegada da Petrobras. Nós crescemos e crescemos juntos com o petróleo. Mas um dia ele vai acabar. Enquanto Macaé era pequena bastava uns trocados para administrar a cidade. A nossa população hoje está perto de 170.000 habitantes. Temos que pensar de onde tirar os futuros recursos para encarar esta nova realidade, que não está tão longe assim.
Azullimao: - Você acha, então, que já começamos a nos preparar para isso?
Fernando: - Timidamente, reconheço. Gostaria que nossa atitude fosse mais agressiva em defesa de nossos direitos. O tempo sempre correu a nosso favor, agora está começando a encurtar. A atividade de exploração deverá declinar a partir de 2015. Olhando para trás, 30 anos, vemos que os anos estão ficando menores. Não devemos confundir o tempo de vida humano com o tempo de uma sociedade. Para o planejamento de uma grande cidade os 10 anos de fartura que nos restam não são nada, diante das necessidades de bem estar da nossa população. Por ai você pode ver quanto tempo já foi perdido.
Azullimao: - Muitas de suas previsões contidas no livro “Pensando Macaé” acabaram acontecendo 13 anos depois. De qual cartola você tirou esses coelhos?
Fernando: - Como o título do livro revela, ele é o resultado de reflexões de um macaense procurando entender e explicar o espanto coletivo após o início da exploração do petróleo em Macaé. Além disso, é também um gesto de amor com a terra onde nascemos. Se nós amamos, nós compreendemos. Talvez esteja aí o segredo.
Azullimao: - Dentro deste raciocínio, Macaé hoje está melhor ou pior?
Fernando: - Pesando na balança e retirando o saudosismo de cena eu acho que está melhor. Isto é, pensando no futuro de nossos filhos, a Macaé dos dias atuais oferece oportunidades que em outra época seriam impensáveis. Afinal de contas estamos vivendo dentro da capital do petróleo brasileiro.
Azullimao: Em outra de suas afirmações, você costuma reclamar que o poder sempre esteve nas mãos de macaenses. Será isto uma torcida para que pessoas de fora sejam nossos governantes?
Fernando: - A responsabilidade pelas besteiras e acertos sempre esteve nas mãos de macaenses. Na verdade, nunca saiu delas. A minha torcida é por quem seja mais capaz, seja ele daqui ou de fora. É evidente que se os dirigentes macaense não se ajustarem aos novos tempos alguém de fora, em determinado momento, tomará conta do espaço vazio.
Azullimao: - Este ajuste está para acontecer agora ou você acha que ainda levará algum tempo?
Fernando: - As coisas não acontecem sozinhas, tudo é consequência de um conjunto de fatores que trabalha ao mesmo tempo. Os grandes projetos e as grandes obras em Macaé, a consciência da nossa participação na geração de riquezas, o intercâmbio com outras cidades, a mistura de raças que está dando uma nova cara ao macaense, tudo isto é uma salada que vai definir quem merecerá nos dirigir no futuro. Esperemos que venha o melhor.
Azullimao: - Mudando um pouco o assunto, você não acha que reclama demais da situação do esgoto em Macaé?
Fernando: - Eu não, mas o meu nariz sim. Gastamos nosso tempo tentando raciocinar, pensar o melhor para Macaé. O mau cheiro, no entanto, é físico, incomoda, fede, é prejudicial à saúde. Além desse fato desagradável, ainda existe outro pior. A devastação e a falta de cuidado com a natureza em nossa volta. Os rios, os canais, as praias, as lagoas de Macaé estão poluídas, por uma culpa que é de todos nós. De quem foge ao seu dever de fazer e ao seu dever de criticar e lutar. Não entendo como não constroem várias estações de tratamento na cidade e preferem poluir tudo com esgoto in natura. Tenho medo só de pensar para onde irá o cocô de tantos edifícios sendo construídos na beira da praia dos Cavaleiros. E a água então!
Azullimao: - De qual água você está falando agora?
Fernando: - O ouro branco do futuro do planeta. Se hoje as guerras são feitas pelo controle do petróleo, no futuro será pelos mananciais de água. Já está faltando água no Brasil, em vários estados. Isto é um perigo. A fonte que abastece Macaé está nas serras e precisamos, urgentemente, unir esforços para que parem com o desmatamento e não destruam as nascentes, como também um trabalho sério para organizar a coleta de esgoto nas cidades serranas. O fascínio com a beleza e qualidade das águas do rio Macaé, enquanto desce das serras, transforma-se em decepção quando a vemos chegar próximo do nível do mar, suja e poluída. Nós estamos destruindo, nem ligamos para o destino que estamos dando ao nosso mais precioso patrimônio. No século XXI, além de configurar um crime, é como uma condenação à própria morte.
Azullimao: - Sim, mas muita gente acredita que ainda há tempo de reverter este quadro.
Fernando: - Não sei se esta seria a afirmativa correta. A pergunta certa talvez fosse: - Preferimos morrer de sede agora ou depois? Não há tempo a perder. Esta luta era para ontem e devemos começar a lutar ferozmente pela nossa sobrevivência, isto é, não permitindo que acabem com nossas matas e florestas, e nem estraguem nossa água de jeito nenhum.
Azullimao: - Bem, depois de tudo isto, para finalizar, você tem esperança no futuro de Macaé?
Fernando: - Eu acredito no ser humano, no que ele tem de melhor. Ainda temos muitos caipiras com o poder nas mãos, decidindo pelo nosso destino. Mas acredito que uma nova geração de macaenses vai atropelar essa gente medíocre de mente curta que já está ficando para trás, sem utilidade. Em verdade, o futuro já chegou a Macaé. O caldo cultural e social, e lá sei eu quantos elementos mais, fervilha por nossas ruas pronto para explodir em uma nova visão. Esta pulsação de vida que eu percebo nas esquinas e na expressão cheia de esperança de cada jovem que vejo cruzar o meu caminho, esta sim, é a certeza que me faz acreditar que estamos diante da chegada de novos tempos e de dias melhores.
Azullimao: - E se alguém quiser comprar um livro podemos ainda encontrá-lo?
Fernando: Sim, na banca de jornais do Rubem, dentro da Galeria Carapebus.
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