Pensando Macaé. - Fernando Tavares Pereira

 
 

23/03/2009
Os dois artigos abaixo, o original de 1995 e o de 2007, são partes da série que comemora 10 anos de lançamento do livro “Pensando Macaé”. A publicação deles, juntos, pretende fazer uma comparação entre as duas épocas e suas semelhanças. 

1° artigo
A questão cultural – 3
Neste artigo, último da trilogia “A questão cultural”, não pude escapar à tentação de misturar meus delírios pessoais com um sincero esforço de pensar uma política de preservação e aproveitamento de nossas potencialidades culturais. Isto porque acredito que nem tudo está perdido. Após vinte anos de jogar a cultura no lixo, felizmente nos sobram mais vinte para consertar o estrago. É tempo suficiente de recriar o que perdemos e elaborar algo de novo, preparando o terreno fértil para receber esta juventude que vem por aí.
Primeiro cuidamos de melhorar o que já temos. O principal centro intelectual de Macaé continua sendo a FAFIMA. Embora esteja caminhando muito bem com os próprios pés deve figurar em qualquer projeto de fortalecimento de nossas instituições. A UENF está chegando e tratada com todas as deferências. São duas escolas que merecem caminharem juntas com o mesmo volume de investimentos. Nós elegemos três deputados, situação inédita em nossa cidade, porque não lançá-los nesta cruzada? E nas demais lutas que falaremos adiante.
A Lyra dos Conspiradores e a S. M. Nova Aurora são partes integrantes de nossa história. Precisam sair do esquecimento ao qual estão relegadas. Sua presença se faz necessária nas praças públicas, em permanentes concertos de música clássica e popular. Uma maneira de recolocá-las em seu verdadeiro lugar, o de centro formador da cultura musical macaense, seria semi-profissionalizar seus músicos. Nas capitais as grandes empresas, em troca de incentivos fiscais, adotam instituições como elas.
Devemos nos penitenciar da falta de respeito com que tratamos a Igreja de Nossa Senhora de Sant’Ana. Abandonada no alto do morro carece de cuidados maiores do que o anual banho de tinta. Sujeita a roubos, depredações, cupins, ela pede proteção. A saída óbvia é urbanizar a área transformando o local em ponto turístico, com a restauração do coreto e da capela, criação de estacionamento e construção de um enorme deck acima do morro, descortinando a visão de toda cidade.
Imediatamente se pensa, quando falamos em teatro, em coisa grandiosa como os prédios do Rio ou São Paulo. O estrago que foi feito em nossos hábitos de cultura leva em sentido contrário. Antes de imaginar a arquitetura buscar a reeducação. Uma casa luxuosa assustará a massa desacostumada. A solução ideal é construir pequenas unidades, os chamados “teatros de bolso”, espalhados pelos bairros. As peças infantis, mais baratas e disponíveis no mercado, serão o grosso do programa inicial. Ao mesmo tempo em que educamos as crianças, e os pais que vão levá-las, será um estímulo aos grupos teatrais da região. A consequência imediata de retomar o costume de frequentar teatro ampliará as possibilidades comerciais de abrir novas salas de cinema. Uma coisa vai puxando a outra.
Para uma cidade que pretende receber uma Universidade é necessário que possua algumas bibliotecas. Mais uma vez repetimos a tática dos teatros: pequenas unidades, uma em cada bairro, as primeiras de preferência nas áreas mais carentes. Precisa que os pavimento sejam arejados, amplos, envolvendo os usuários em uma atmosfera de bem estar. A Biblioteca Nacional, o Ministério da Educação, Editoras, são os parceiros naturais nesta empreitada.
Um Museu. É o que falta em Macaé. Um Museu a servir como ponte entre a conservação de nossa memória coletiva e a entrada no futuro. Metade dedicada a documentos e fotografias históricas, arquivos, artistas da terra e o rico artesanato de nossa origem rural, praticamente esquecido. A outra metade um variado painel do desenvolvimento da indústria petrolífera, privilegiando a participação ativa da Petrobras. Constando de fotografias, mostra didática de equipamentos, vídeos, maquetes de plataformas marítimas, reproduções detalhadas do dia a dia de um operário embarcado, o papel das empresas privadas nacionais e multinacionais, etc. Se pudesse escolheria o Solar da família Mello, na rua Conde de Araruama, como sede do museu de Macaé.
Nesse ponto final de nossa conversa imagino os argumentos para me acusar de sonhador. Vá lá que seja. É inegável, porém, e independente do que eu escreva, que jamais a conjunção do tempo e das oportunidades foi tão a nosso favor. O resto do Brasil esgota suas energias para dar um simples passo à frente. Aqui pulamos a barreira sem pensar. O petróleo jorra, chovem os royalties, o progresso mantém a velocidade. Apesar dos anos que perdemos a sorte ainda continua do nosso lado. Basta somente a vontade de recomeçar.

Junho 1995.

2° artigo
O Solar e outras coisas mais
Dentre tantas surpresas na vida tive um dia a grata satisfação de passar em frente ao Solar dos Mello, na rua Conde de Araruama, e acordar como de um sonho. O que sempre desejei que ali fosse feito aconteceu. O Solar tinindo de novo, com seus detalhes neoclássicos enfeitando as paredes, a área externa exemplarmente aproveitada, telhados, janelas, muros e grades conservados. E a casa transformada em Museu de Macaé. Aos olhos de alguém poderá parecer que estou contente com pouco, uma pequena obra entre outras grandes. Para mim, entretanto, foi o bastante. Ainda mais quando percebo, embaixo da idéia de preservar o monumento histórico, que nem tudo está perdido. Somos mais de um garimpando as belezas da cidade, recriando a nossa memória, tudo isso traduzido em um saudável sentimento de harmonia ligando o passado, o presente e o futuro.
Se tudo fosse resumido na ressurreição do Solar, estaríamos bem. Ele foi uma pedra preciosa recriada. De que outros lugares podemos dizer o mesmo? 
As duas mais antigas sociedades musicais macaenses, a S. M. Nova Aurora e a Lyra dos Conspiradores, infelizmente continuam a depender da atenção de alguns macaenses abnegados, que através de salvadoras e eventuais contribuições mantém-nas ainda vivas. Deveria existir um esforço da comunidade, poder público e empresas privadas, para buscar soluções definitivas que afastassem de vez a ameaça de desaparecimento que pesa sobre elas. No mesmo passo reativar seu corpo de músicos, elas que sempre foram um centro de renovação de talentos na música da cidade. Para que depois, como nos países civilizados, suas bandas tomem conta de nossas praças e ruas, reeducando o povo em eventos gratuitos de cultura.
Ah!…E a igreja de Nossa Senhora de Santana. Como nosso padroeiro São João Batista, ela com suas lendas e tradições mora no coração da gente macaense. Tão amada e tão abandonada. Merecedora de pinceladas anuais de tinta de má qualidade para disfarçar sua miséria, é só o que recebe de agradecimento. A imagem original da santa não existe mais, parece que foi roubada. Nas costas da igreja e de frente para a cidade foi colocado um Cristo de gosto duvidoso com a infeliz intenção de imitar a imagem do Redentor no Rio de Janeiro. 
O não aproveitamento turístico da vista privilegiada do morro de Santana é um mistério insondável. Com uma visão circular de toda cidade pede a construção de um deck de madeira ao seu redor, o que poderia inclusive servir como fonte de renda. Uma reforma nos muros do cemitério, reativação do coreto centenário, reativação do cruzeiro e embelezamento dos variados acessos ao morro, assim como uma obra de restauração da igreja, teremos um ponto de visitação turística de primeira linha. 
Descendo o morro podemos confessar nossa admiração pela obra que foi o Teatro Municipal de Macaé, apesar da grana que imagino ter sido gasta em sua construção. Num país com a desigualdade de distribuição de renda como o Brasil, a cultura deveria ser vista como uma atividade de guerrilha, penetrando em lugares os quais ninguém pensa atingir. O oposto do papel da velha dama burguesa sentada, esperando que a ralé venha beber de sua generosidade. O teatro está pronto, muito bem, no centro da cidade, melhor ainda. Com certeza o público que assiste a suas peças tem condições de vê-las em outro lugar. Porém, o teatro é do povo como a praça é do povo.
Me pergunto porque não construir teatros, ou algo parecido com a mesma finalidade, em lugares que não possuem outra atividade senão a luta diária pelo pão de cada dia. Pequenas unidades em bairros pobres, com programações populares, para lentamente criar o hábito da cultura. 
Shakespeare na Nova Holanda, Ariano Suassuna na Fronteira soam bem melhor do que qualquer ícone da rede Globo, no Teatro Municipal de Macaé. Conhecimento significa transformação, choque, revolução, o resto é perfumaria.
Uma atividade turística forte e organizada, teatros para todos os gostos, cinemas, livrarias e bibliotecas, no plural, formam o caldo cultural que irá preparar Macaé para seu destino de cidade grande. A população se multiplica em um ritmo vertiginoso. O crescimento urbano trocou o limite horizontal pela expansão vertical, basta contar as dezenas de prédios que pipocam por toda parte. Em um surto de grandeza a Prefeitura de Macaé apostou na construção de uma Universidade Municipal, uma realização que mostra uma ousadia plena de confiança no futuro.
Não vamos nos iludir. Para enfrentar o desafio de ser uma metrópole, educar uma geração inteira, de manter a excelência de uma Universidade, precisamos muito mais do que dinheiro. Ainda nos falta tecer uma teia de elementos culturais que nos prepare para receber e realizar todos os nossos sonhos. Estão plantando a semente de um fruto que irá saciar a fome de conhecimento há muito tempo esperado. Cuidemos para que ela não seja plantada em uma terra tão árida quanto inculta.

Macaé, 13 de fevereiro de 2007.
O autor destas crônicas, Fernando Tavares Pereira, é um macaense de múltiplos talentos. Durante os anos em que viveu no Rio de Janeiro diplomou-se em língua francesa pela “Alliance Française”, onde também fez várias exposições de luminárias e lançou livros de arte gráfica. 
Retornou a Macaé. Aqui iniciou sua atividade de cronista escrevendo para revistas e jornais macaenses. Trabalha há vários anos na Bacia de Campos. O livro que deu origem a esta série de crônicas, “Pensando Macaé”, encontra-se à venda na banca de jornal da Galeria Carapebus. 

E.mail: ftavares48@terra.com.br

Em busca da identidade - Uma nova cara para Macaé - 23/10/08
1° artigo Em busca do futuro - 2º O Fururo Chegou - 16/07/08
Abertura e entrevista - 13/03/08


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