Pensando Macaé. - Fernando Tavares Pereira

 
 

23/10/2008
Os dois artigos abaixo, o original de 1995 e o de 2007, são partes da série que comemora 10 anos de lançamento do livro “Pensando Macaé”. A publicação deles, juntos, pretende fazer uma comparação entre as duas épocas e suas semelhanças. 

1° artigo
Em busca da identidade

Terceiro maior município do Estado do Rio, e atualmente primeiro em esbanjar progresso e crescimento econômico, Macaé ainda não se deu conta de sua importância diante das cidades circunvizinhas. Para onde nós vamos, esta é a inclinação que dirige toda região. O que de bom ou mau acontece entre nós tem reflexos ali adiante. É uma liderança natural, não imposta, produto desta tremenda transformação que afetou nossa estrutura. De balneário silencioso na década de 60 saltamos para um mar de contradições sociais, que é nossa cara hoje. Próximo de 200.000 habitantes não paramos para pensar o quê de diferente essa massa de imigrantes de toda espécie trouxe para a cidade. Quem são eles? O que querem?
A resposta de nossa população diante da chegada dos primeiros estrangeiros foi de curiosidade. Repetíamos a saga da história do Brasil, no papel de indígenas ante o estranho de pele branca que aportava em nosso continente. Recebemos a todos com benevolência, os mais espertos daqui preparando o lucro futuro com a tal invasão.
A miscigenação ocorreu de maneira rápida e sem traumas. Alguns anos depois a quantidade de Michaels e Johns esparramavam-se no colo de suas mães macaenses com pais europeus ou americanos. Existiram aquelas que foram para o exterior com seus maridos.
A essa primeira fase seguiu-se outra com menos facilidade de ser percebida. Foi a da interação com uma nova população originária do Brasil mesmo. São as pessoas de diversos estados que para cá vieram em busca de emprego e das oportunidades surgidas com a expansão da exploração do petróleo. Profissionais de curso superior, técnicos, peões, homens e mulheres que contribuíram para o surgimento de uma Macaé cosmopolita e transnacional.
Bairros surgiram na esteira desse aumento populacional. O Aeroporto foi o primeiro deles, construído para desafogar a velha cidade que não tinha mais teto para abrigar tanta gente. Novo Visconde, Nova Macaé, Novo Cavaleiros, Nova Holanda, foi a terminologia encontrada para decodificar a velocidade e a surpresa de uma realidade jamais imaginada.
O comércio, sempre restrito aos fregueses tradicionais, expandiu suas portas além dos próprios limites. Bancos cresciam feito grama. As empresas surgiam do nada, num crescimento alucinante. Hotéis, restaurantes, bares, a arrecadação de impostos municipais estourou os cofres da Prefeitura. A Petrobras, os royalties, as plataformas, os milhares de operários que conhecem Macaé de passagem ou quando pernoitam à espera do embarque para suas unidades no mar.
Assim ficamos, os nativos, espremidos entre o fogo da tradição e da mudança radical que se desenvolvia à nossa revelia. Levamos vinte anos para absorver estas transformações, conviver e aceitá-las. Acredito que, de um modo ou de outro, sobrevivemos.
Suportamos. E sobrevivemos como um bicho urbano defendendo seu espaço a todo custo. Trocando a identidade pela sobrevivência. O que daí resultou é onde se localiza a mais profunda ferida; porque fomos obrigados, pelas circunstâncias, a aceitar um futuro que nenhum de nós teve a sabedoria de medir. Caminhamos sempre em frente, mas de cabeça baixa e olhando o próprio umbigo. O amontoado populacional não teve resposta no incremento da cultura e bem estar, com a finalidade de educar os novos habitantes. Nenhum espaço de lazer foi criado para o entretenimento desta massa: nem teatros, cinemas, museus, parques, galerias, bibliotecas, estádios, quadras, clubes populares. Abandonamos todos à própria sorte, sem que nada fosse feito para melhorar o nível da metrópole em formação. O que havia foi simplesmente destruído.
Nos dias de hoje corremos o risco de ver uma explosão de ignorância que já se delineia nos hábitos da cidade. O feio, o descaso e a desorganização estão aí para quem quiser anotar.
Recentemente tivemos um crime com tal brutalidade que chocou toda população. Até agora esta é a nossa única semelhança com a adiantada vida das capitais. Delas ainda não soubemos herdar o que há de bom. Em compensação nossa miséria merece figurar ao lado das mais chocantes manchetes dos grandes centros.
Um longo tempo passou e a impressão é que deixamos o barco correr solto. É preciso novamente reavaliar a realidade, discutir soluções e enxergar longe. Macaé é uma cidade privilegiada, com as portas abertas para o futuro. O petróleo é sua maior dádiva. Ainda que não seja eterno.
Agosto 1993.

2° artigo
Uma nova cara para Macaé
Em 1976 Macaé contava com uma população em torno de 50.000 habitantes. Em 2006 saltamos para um número próximo de 170.000. Comunidade nenhuma fica impune diante de tanta mudança, mesmo que tenha sido em um razoável período de 30 anos. 
Pois assim aconteceu conosco. De preguiçoso balneário do interior atingimos um status de potência responsável pela produção da maior parte do petróleo brasileiro. Tornamo-nos pólo de atração para multinacionais de todos os cantos do planeta. De meia dúzia de bairros inchamos para uma quantidade que o mais bem informado macaense sequer sabe enumerar. Multiplicou-se a atividade do comércio, indústria, a quantidade de bancos, escolas, imóveis, hotéis, toda parafernália que produz o ruído das grandes cidades. A imagem do território que cabia em nossa mente expandiu-se para fronteiras fora de si mesma.
Destarte, apenas massa e cimento, só madeira e ferro. A conquista do espaço geográfico, no entanto, não se refletiu em aquisição de bens culturais. Fisicamente crescemos, mentalmente estacionamos. Podemos dizer que hoje vivemos em uma metrópole multirracial, povoada de imigrantes de toda espécie, multilíngüe, congregando sob o mesmo teto uma Babel de sotaques, múltipla em todos os aspectos da alma humana. O nativo macaense sobreviveu a este ataque e se adaptou. No entanto, foi obrigado a deixar na caminhada os rastros de sua memória ancestral. Os filhos da terra nascidos neste novo tempo não gastarão muitos neurônios com esse tipo de problema. A Macaé que eles enxergam é diferente da antiga. O mercado de trabalho ligado à indústria de petróleo tem uma dinâmica própria que lhes exige cada vez mais especialização, preparo e um olhar para diante. O jovem formando sabe que as oportunidades correm lado a lado com a sua vontade de crescer profissionalmente e não perde tempo. As portas se abrem para todos, sem distinção.
Do outro lado do otimismo devemos contar nos dedos e lembrar o que destruímos durante todos estes anos. A aldeia invadida ficou a ver navios e perdeu sua identidade. O macaense retirou dos ombros a responsabilidade de manter o que recebera e nada mais fez, talvez esperando que o estrangeiro fizesse por ele. Em conseqüência perdemos a consciência e entramos em um estado de coma que duraram três décadas.
Desse jeito ficamos nós, os antigos, descaracterizados, e a dourada geração do bravo terceiro milênio, desmemoriada, enfiando-se dentro de bares e cervejas por absoluta falta de opção.
Estranho que uma cidade fervilhando de influências como Macaé não tenha tido força suficiente para quebrar a grossa casca de sua personalidade coletiva. Embora, no momento, haja conjunções bem favoráveis para fazer surgir uma nova ideologia.
Assim como uma vez o Brasil agrário, virado de cabeça para baixo pelos ventos da industrialização iniciada na década de 50, pariu uma classe de intelectuais que marcou o país e o mundo com uma original manifestação da cultura brasileira, assim nós também temos o tempero completo para explodir em uma autêntica revolução de costumes: a mudança acelerada, o cruzamento de raças, o crescimento populacional, o choque de culturas, uma geração sedenta de conhecimento. Falta-nos apenas desvendar o segredo para que tudo isso ocorra e ativar a fritura. No princípio falhamos em avaliar a experiência humana que ocorria em nossa volta. A lentidão do raciocínio foi o que nos impediu de tomar a dianteira dos acontecimentos. Vivemos agora em velocidade diferente. Não há como escapar da correnteza que nos arrasta.
Basta uma olhada em volta. Torna-se cada vez mais difícil reconhecer nossa antiga terra. Estranhas construções, estranha gente, uma alma diferente pulsa em nossas ruas buscando uma tonalidade para identificar o rosto que se esconde debaixo de uma nova pele. Sem saudosismo, Macaé está melhor do que era. Hoje somos cidadãos do mundo, cruzamos as fronteiras além de nós mesmos, somos um caldo transnacional pronto para o nascimento. 
Para nossa sorte a roda da fortuna gira e segue os ventos do destino. Em algum momento essa pressão vai escapar e desenhar a imagem guardada no seu interior. O desafio agora é encarar o que está acontecendo no tempo presente a fim de solucionar a equação que se apresenta. 
O progresso há muito deu a partida e sentimos no ar uma busca por nossa identidade. Com certeza, a nova cara de Macaé já está desabrochando na atitude daquelas pessoas que têm o espírito aberto e enxergam a grandeza do futuro que nos espera. Qual habitante será este que iremos chamar de macaense, não importa. Devemos sim, sem medo, confiar na miscigenação e tirar o melhor proveito dessa boa gente do mundo inteiro que aqui aportou cheia de sonhos e esperanças.
Macaé, 06 de fevereiro de 2007

O autor destas crônicas, Fernando Tavares Pereira, é um macaense de múltiplos talentos. Durante os anos em que viveu no Rio de Janeiro diplomou-se em língua francesa pela “Alliance Française”, onde também fez várias exposições de luminárias e lançou livros de arte gráfica. 
Retornou a Macaé. Aqui iniciou sua atividade de cronista escrevendo para revistas e jornais macaenses. Trabalha há vários anos na Bacia de Campos. O livro que deu origem a esta série de crônicas, “Pensando Macaé”, encontra-se à venda na banca de jornal da Galeria Carapebus. 

E.mail: ftavares48@terra.com.br

1° artigo Em busca do futuro - 2º O Fururo Chegou - 16/07/08
Abertura e entrevista - 13/03/08


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