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29/11/2007
*A Lista de Ailce.*
Encerrando o curso de direção teatral na Universidade Federal do Estado do
Rio de Janeiro, concluo que a UNIRIO não é uma faculdade pública, é pessoal;
porque levo para além das fronteiras da Praia Vermelha a melhor das
bagagens: as pessoas que conheci e os bons amigos que descobri.Quatro anos e
meio valeram à pena por todas as "pratiquinhas", pelos Mamulengos, pela
Lista de Ailce e pelo Pão de Açúcar. " A Lista de
Ailce ", de Herbert de Souza (Betinho). Peça de formatura da macaense Simone Kalil,
no curso de Artes Cênicas, Bacharelado em Direção Teatral. Os nomes listados
dão origem a pequenos necrológios, só que diferentes das notícias de morte
publicadas nos jornais que tratam de gente ilustre. Os necrológios de A
lista de Ailce contam breves e saborosas histórias de vidas de homens e
mulheres que habitaram a infância de Betinho na pequena cidade mineira de
Bocaiúva. Uma galeria de figuras ímpares, que inclui o tio colecionador de
tudo e chefe do correio local, os casais perfeitos e os imperfeitos, o
médico que errava diagnósticos, o primo suicida, os mendigos e os padres, as
mulheres avançadas para o seu tempo. Até o político famoso - José Maria
Alkimin - ganha seu necrológio, em que se destaca a capacidade de fazer
promessas e nunca cumpri-las. A genealogia familiar comparece em peso: José
Maria, o primeiro irmão hemofílico a morrer, a avó Dona Mariquinha - a
mãe-grande e controladora de todos os movimentos da família -, as tias, a
irmã, os irmãos mortos pela AIDS, o pai Henrique e a mãe, Dona Maria,
destinatária das famosas cartas para a mãe escritas por Henfil para a
imprensa e para a TV nos anos 70. De cada personagem se narra um pedacinho
da vida, aquele que melhor define uma fragilidade ou uma grandeza. Afinal,
quase todos, antes de morrerem, viveram muito. Fazendo a crônica dos mortos
de Bocaiúva, Betinho vai reunindo lembranças: as namoradas encantadas da
infância, o quarto de menino tuberculoso nos fundos da casa, a iniciação na
militância política ainda na juventude e, ao final, desenha um esboço de
auto-retrato. Narrando histórias de cidades do interior, que se repetem em
qualquer parte do mundo, Betinho faz uma reflexão sobre a vida e nos faz
crer que é possível avisar às pessoas que se vai morrer, mas que a hora
ainda pode demorar a chegar. Enquanto isso há tempo de descobrir a razão de
se estar vivo.
Texto: Simone Kalil
Fotos:Tânia Schueler




tschueler@gmail.com

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