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19/01//2007
O mundo é redondo
Em algum momento em 2005, dizem observadores da internet, o usuário de número 1 bilhão entrou na rede. Ninguém, é claro, sabe quem foi. “Em termos estatísticos, é provável que seja uma mulher de 24 anos, de Xangai”, diz Jakob Nielsen, especialista em usabilidade da internet. Em noticiários, blogs e reuniões sociais, o dado foi citado para sublinhar algo que já virou lugarcomum: o mundo é plano.
Thomas Friedman, autor de bestseller homônimo, definiu o conceito de mundo plano numa recente entrevista para a revista Wired: “Da convergência de várias forças tecnológicas e políticas, e com a ajuda da internet, surgiu uma arena mundial aberta a formas de colaboração desvinculadas de fatores geográficos e de distância — e, em breve, até de idioma”. A arena descrita por Friedman é, naturalmente, igualitária, aplainada pelo fluxo irrestrito de informações. Segue Friedman: “Bill Gates disse algo interessante: ‘Vinte anos atrás, o que seria melhor: ser um aluno mediano numa cidadezinha americana qualquer ou um gênio em Xangai? Há 20 anos, a primeira opção seria a melhor. Hoje é o contrário: seria bem melhor ser um gênio em Xangai, pois qualquer um pode exportar seu talento para qualquer parte do mundo’”.
Estamos, sim, interligados numa escala espantosa. Mas Gates, Friedman e muitos outros cometem um erro fundamental ao afirmar que a pura conectividade vai igualar as forças em disputa, dando àquela hipotética moça de Xangai a capacidade de competir em pé de igualdade com qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo. Seu erro é confundir informação com conhecimento.
Não é uma idéia nova. Professores universitários estão habituados a lutar contra a tentativa de alunos de confundir uma coisa e outra . Mas consultores, jornalistas e gente de negócios tornaram perigosamente difusa tal distinção ao defender a compra de trilhões de dólares em maquinário de TI voltado à “gestão do conhecimento”. Grosso modo, o que montamos foi uma vasta estrutura global de TI excelente para levar informações — mas não conhecimento — de um lugar a outro.
Qual a diferença entre informação e conhecimento? Informação é uma mensagem unidimensional, limitada por sua forma: é um documento, imagem, discurso, genoma, receita, partitura musical. É algo que se pode embalar e enviar instantaneamente a qualquer um, em qualquer lugar. O Google é hoje a máquina de informação por excelência, dando acesso instantâneo a quase toda informação que se possa imaginar, incluindo instruções para se realizar uma apendicectomia laparoscópica. Mas aposto que ninguém gostaria de ter o apêndice extraído pela jovem em Xangai, por mais informação que a moça tenha coletado sobre a operação — a menos que também tivesse anos de treinamento cirúrgico prático. Somente anos de estudo, observação e atuação sob o olhar atento de um tutor habilitado dariam à moça o conhecimento necessário para realizar com perícia a cirurgia.
O conhecimento resulta da assimilação e da conexão de informações por meio da experiência, em geral sob a tutela de um orientador. Com isso, é integrado à organização de um modo que, até hoje, resistiu a grande parte das tentativas de codificação. O conhecimento dá à empresa a capacidade de criar novos medicamentos, projetar barcos de corrida, dar conselhos competitivos úteis, e por aí vai. E, embora o custo de obter, armazenar e transmitir a informação tenha caído vertiginosamente, o custo de fazer o mesmo com o conhecimento não diminuiu muito (no caso do treinamento cirúrgico e de outras especialidades, provavelmente subiu). Nem toda a TI do mundo, ao menos por ora, é capaz de acelerar a aquisição do conhecimento. Hoje, o tempo levado para se aprender francês, cálculo ou química é quase igual ao que se levava há 200 anos. O conhecimento exige tempo. Adquirilo, retêlo e transferilo custa caro — o que é tão verdade para organizações quanto para países e indivíduos.
Índia e China, em especial, avançam a passos rápidos na capacidade de conhecimento. O trabalho de atendimento ao cliente, fundado na informação e que tecnologias aplainadoras do mundo puseram ao alcance da população da Índia, foi seguido da produção de software, tarefa realmente criativa, baseada no conhecimento. Já na China a capacidade de produção, fundada na informação, hoje é acentuada pelo projeto de produtos, fundado no conhecimento. Mas que parcela dos povos indiano e chinês de fato pertence à economia do conhecimento?
A maioria da população do planeta permanece fora do circuito do conhecimento e fora da rede de informação. Se 1 bilhão de indivíduos estão na internet, há outros 5 bilhões e meio fora dela. Incluir essa gente toda no diálogo mundial é crucial para a verdadeira democratização do conhecimento. Mas dar a cada um acesso a email e ao Google não vai, por si só, aplainar o planeta. Até que governos, ONGs, escolas, empresas e outras instituições aceitem a idéia de que o conhecimento — não a informação — é a chave da prosperidade, a maioria dos habitantes do planeta seguirá um mundo à parte.
Fonte: Laurence Prusak, Distinguished Scholarin Residence na Babson College, em Wellesley, Massachusetts EUA.
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Marcelino Soares, contabilista macaense, fundador da Contec Contabilidade Técnica de Macaé, com doze anos de atuação no mercado, membro da Associação Macaense de Contabilistas – AMACON.

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