Espaço Cultural  - Ilcimar Abreu

 
 

08/09/2005
Adélia Prado

Nascida em Divinópolis - Minas Gerais, celebrizou sua cidade ao percorrer o Brasil e o mundo com sua arte em prosa e poesia.
Mulher de vida simples, sabe como ninguém aliar técnica e alma em seus escritos; tudo feito de maneira singular. 
A moça arrumando a cozinha, o cheiro de mato, a missa são temas que envolvem a literatura produzida por Adélia Prado. 
Teve seu primeiro livro publicado em 1976 a pedido de Carlos Drummond de Andrade:

"Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis".

O talento literário
Nas palavras de Adélia, a descoberta do talento:

“Moça feita, li Drummond a primeira vez em prosa. Muitos anos mais tarde, Guimarães Rosa, Clarisse. Esta é a minha turma, pensei. Gostam do que eu gosto. Minha felicidade foi imensa. Continuava a escrever, mas enfadara-me do meu próprio tom, haurido de fontes que não a minha. Até que um dia, propriamente após a morte do meu pai, começo a escrever torrencialmente e percebo uma fala minha, diversa da dos autores que amava. É isto, é a minha fala.”

A importância da poeta
Por que Adélia é importante para o cenário literário brasileiro? 
Porque reinventa a mulher. 
Em sua poesia, convivem a intelectual com a esposa e dona de casa, extremamente femininas e sem conflitos com a figura masculina. 


Poesia Escolhida
CASAMENTO
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque, 
mas que limpe os peixes. 
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, 
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. 
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, 
de vez em quando os cotovelos se esbarram, 
ele fala coisas como 'este foi difícil' 
'prateou no ar dando rabanadas' 
e faz o gesto com a mão. 
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez 
atravessa a cozinha como um rio profundo. 
Por fim, os peixes na travessa, 
vamos dormir. 
Coisas prateadas espocam: 
somos noivo e noiva.

Com Licença Poética 
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

O poema “Dona Doida” serviu de inspiração à atriz Fernanda Montenegro, que a monta espetáculo baseado em textos de Adélia, apresentando-se inclusive no exterior. 

Dona Doida
Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

Fonte inesgotável: releiam
Releiam os poemas diversas vezes, continuem a pesquisar Adélia Prado, comprem seus livros, enriqueçam suas bibliotecas e suas almas. 
Num de meus próximos artigos, pretendo escrever sobre um grande brasileiro, que adoro ler e ouvir: Leonardo Boff, cuja formação religiosa e humanista torna qualquer apresentação dispensável. 
As reflexões de Boff jamais envelhecerão, assim como as palavras de nossa poeta Adélia Prado.

Fique atento:
I Prêmio de Poesia Augusto dos Anjos - patrocinado pelo Governo do Estado da Paraíba, cujo tema é “Homenagem aos 440 anos da cidade do Rio de Janeiro”.
Inscrições de 01 a 30 de setembro de 2005.
Acesse o site http://culturahoje.com.br/premio
Conheça:
Acesse o site http://jbonline.terra.com.br 
Desfrute dos artigos, ensaios e boas informações do “Café Literário” e de “Cenário”, com dicas sobre música, cinema, cultura, teatro, etc.
Até o próximo encontro. Leiam sempre!

ILCIMAR ABREU DOS SANTOS 
ilcimarabreu@gmail.com 































 

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