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31/07/2006
Poetas geniais
Sá de Miranda, século XVI e Ferreira Gullar, século XXI
“Comigo me desavim”, é uma obra de encher os olhos, porque, escrita no século XVI, impressiona pela modernidade. Essa pequena obra-prima antecipa os males do homem, no interminável confronto do seu “eu” com seu “outro”.
Seu autor, Sá de Miranda, é um dos mais lidos autores portugueses depois de Camões, seu contemporâneo.
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Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.
Com dor, da gente fugia,
antes que esta assi crecesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim?
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A palavra “imigo” é a forma sincopada para “inimigo”, algo como se fosse in+migo. Ou seja, o inimigo está dentro de mim; como se duas vozes interiores travassem uma luta inglória em busca da essência do ser.
Apesar da escrita característica da época, o leitor da atualidade consegue, certamente, vislumbrar a carga de beleza poética contida nos versos, além do paralelismo e dualidade no jogo de palavras: “não posso viver comigo / nem posso fugir de mim”.
Observem, a seguir, o poema “Traduzir-se”, de Ferreira Gullar, autor brasileiro de nossos dias:
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Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?
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Nota-se que o pioneirismo da idéia do autor português, Sá de Miranda, continua a ecoar dentre as palavras e a emoção do autor brasileiro.
Ambos os artistas adentram o que é intraduzível – o mistério da existência - dentro de cada ser humano e que, talvez, assim permaneça por todo o sempre.
Novidades da literatura
1) Visite: http://www.academia.org.br
A Academia Brasileira de Letras está com site renovado, mais moderno, muito mais informativo, dinâmico e interativo, além dos portais sobre “Machado de Assis” e “Euclides da Cunha”.
2) Visite: http://www.germinaliteratura.com.br/r.htm
O poeta francês Rimbaud tem inúmeros escritos transpostos para o site citado acima. Vale a pena ler, pois são todos lindíssimos.
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ILCIMAR ABREU DOS SANTOS é estudante de Letras, cursando Português-Literatura.
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