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11/02/2006
Caio Fernando Abreu:
Literatura que se entranha em nós
“DEZ ANOS SEM A PRESENÇA ANÁRQUICA
DE UM ESCRITOR ARREBATADOR”
O pleno encantamento que envolve os apreciadores da literatura quando se deparam com a obra de Caio Fernando Abreu não é casual ou imotivado. Na verdade, os textos deste gaúcho de Santiago de Boqueirão assombram o espírito do leitor pela extraordinária força criativa, que pulsa e transpira dentre as palavras.
Por tudo isso, discorrer sobre ele é um desafio estimulante. Seu nome contém adjetivos raros: forte, profundo, polêmico, perturbador, poético, teatral...
Sua presença marcante no cenário jornalístico e literário, onde teve destaque como contista e cronista de puro estilo, e seu desaparecimento recente - este ano completam-se dez anos de sua morte, avivam o interesse para que deitemos nossos olhos sobre suas idéias.
Falou como ninguém da solidão e das angústias do homem urbano, sempre em frêmita busca de sua identidade. Sua literatura retrata a turbulência de sentimentos da geração do
“desbunde”, pós ditadura militar.
Audaz, escolheu correr riscos na vida e assumiu que era aidético em sua coluna no jornal O Estado de S. Paulo, assim como jamais escondeu sua homossexualidade.
Profundo admirador da literatura de Clarice Lispector, amigo de Hilda Hilst, Caio passeia com vigor e autenticidade pelo seu próprio tempo, focando com sentimento de urgência o coração do leitor.
Seu mais conhecido livro “Morangos Mofados”, lançado em 1982, quando a ditadura já não mostrava tanta força, retrata a busca de respostas para relações desfeitas e o amor homoerótico.
“Onde Andará Dulce Veiga”, livro premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), serve de enredo para o filme de mesmo nome, em fase de finalização, dirigido por Guilherme de Almeida Prado.
Organizado por Ítalo Moriconi, “Caio Fernando Abreu Cartas”, publicação da Editora Aeroplano, seleciona as correspondências trocadas com amigos, escritores, atores que, entremeadas de afetos e dúvidas, exibem textos de indiscutível qualidade.
Se quiser descobrir por que Caio F. (assim se autointitulava) é considerado um dos escritores mais inovadores surgidos no Brasil nas últimas décadas do século XX, leia
“Triângulo das Águas”, ganhador do Prêmio Jabuti em 1984, livro de contos sobre o qual o próprio autor confidencia: “Não o escrevi, fui escrito por ele.”
“...Conhecia aqueles ventos. Armavam-se de repente além do contorno dos edifícios que eu via da janela do segundo quarto, depois desabavam paredes adentro, soprando por todos os cantos os fiapos dos montes de palha, as contas, as tiras coloridas. Dentro do banheiro havia uma moça de ombros nus cobertos de sardas, olhos pintados de preto, boca muito vermelha, seios expostos como duas pêras maduras, as pontas levemente avermelhadas de onde sobressaía o bico mais escuro que devia prendê-los à árvore. Quis tocá-los. Cheguei a estender a mão. Foi quando vi a cauda úmida de peixe emergindo da banheira para elevar-se, verde brilhante escamoso contra os azulejos brancos. Ela sorria para mim, sereia, me convidando, Ulisses. Como uma visão, mas eu sabia que não era nenhuma das imagens libertadas do buraco negro da memória. Quando tentei tocar seus seios claros, respingados de sardas, senti o vento das asas batendo do anjo preso no segundo quarto a me comprimir contra a parede de corredor estreito, e logo depois o interior sedoso de uma capa negra com dois caninos agudos de vampiro dentro de lábios descorados abertos num meio sorriso, aproximando-se lento das veias da minha garganta. Quis senti-lo assim, macio assassino penetrante agudo suculento afundar os caninos na minha carne. Cheguei a inclinar de leve a cabeça sobre o ombro, oferecendo o pescoço para que me tivesse mais fácil. ...”
(Trecho do conto O Marinheiro, de Triângulo das Águas)
Vítima do HIV, faleceu aos 47 anos, junto de toda a família, pleno de intensidade e vida vivida, na cidadezinha sem glamour em que nascera. Mas o final, ele também escolheu, desse jeito assim bem simples.
Alento
Quando nada mais houver,
eu me erguerei cantando,
saudando a vida
com meu corpo de cavalo jovem.
E numa louca corrida
entregarei meu ser ao ser do Tempo
e a minha voz à doce voz do vento.
Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.
Homenagens
Com o objetivo de relembrar o estilo e a poesia de Caio Fernando Abreu, acompanhe o relançamento de diversos livros, assista palestras e montagens teatrais, leia as reportagens especiais, dentre outros eventos.
Tudo na medida certa pra matar a saudade, pra disfarçar a ausência.
Peça teatral - Mezzanino do Espaço Sesc Copacabana - sempre de quinta a domingo às 20h até 19 de fevereiro - “Vamos fazer uma festa enquanto o dia não chega" - Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 Tel: (21) 2547-0156
Outros eventos teatrais estão previstos para setembro no Rio de Janeiro.
Palestra e curta - Dia 15/02 - 20h - Exibição do curta-metragem “Dama da noite”
Palestra com Scarlet Moon (atriz e jornalista), Marcelo Seccron Bessa (doutor em letras pela PUC-Rio) e Graça Medeiros (astróloga de Caio)
Revista Bravo - Fevereiro/2006 - Matéria intitulada “Caio F - Herdeiro e inventor”
Relançamentos - Vários títulos serão reimpressos ao longo do ano como “Onde Andará Dulce Veiga”, “Pequenas Epifanias” e “Limite Branco”.
Outros títulos do autor
- O Ovo Apunhalado (Ed. LPM)
- Fragmentos (Ed. LPM)
- Ovelhas Negras (Ed. LPM)
- Estranhos Estrangeiros (Cia. das Letras)
- Pedra de Calcutá (Cia. das Letras)
- Caio 3D - O Essencial da Década de 1970 (Ed. AGIR)
- Caio 3D - O Essencial da Década de 1980 (Ed. AGIR)
- Caio 3D - O Essencial da Década de 1990 (a ser lançado no mercado)
Notícias e Concursos
Novo Curso de Graduação: Bacharelado em estudos literários
Pesquise o endereço para mais informações: http://www.comvest.unicamp.br/cursos/estudos_literarios.html
Seminário “Questões de gênero na literatura e na produção cultural para crianças”
Local: Universidade Federal de Santa Catarina - 28 a 30 de agosto de 2006
Acesse http://fazendogenero7.ufsc.br
1º. Concurso Literatura para Todos
Promovido pelo Ministério da Educação, o concurso vai selecionar oito obras de diferentes gêneros literários, que serão impressas e distribuídas pelo MEC.
O prazo final para inscrições é 16 de março de 2006.
Os textos deverão considerar as especificidades dos jovens e adultos em processo de alfabetização, contendo uma narrativa atraente a este público.
Maiores detalhes acesse http://portal.mec.gov.br
ILCIMAR ABREU DOS SANTOS é estudante do 3º. Período de Letras da Fafima - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé
Trabalho supervisionado pelo Professor de Literatura Brasileira da Fafima - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé, Rodrigo da Costa Araújo
ilcimar.santos@uol.com.br
ILCIMAR ABREU DOS SANTOS
ilcimarabreu@gmail.com
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